quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

um homem velho उम होमेम वेल्हो

Foto: national geografic magazinne
veja bem meu bem, todos esses carros aí estacionados são mais novos do que eu. todos esses velhos acolá sentados são crianças ante a mim, são mais novos do que eu. os muros caiados ou mesmo os derrubados são mais novos do que eu. os astros do cinema e as garotas de programa, o calor do deserto, são mais novos do que eu. mesmo os Opalas, e aquele carro preto estacionado na "catarina", mesmo as igrejas, mesmo as florestas – tudo é mais novo do que eu. é mais nova do que eu a própria Tebas que a relva recobriu e o mundo emudeceu. o clarão das trevas, a primeira oração e os tubarões em cio – mais novos do que eu. sou eu mais antigo que um pergaminho, que o coração de um santo, que o olho do profeta Maomé. sou eu mais antigo que o plâncton marítimo, que a figueira de Judas, que a sarça ardente, que o nascimento de Zeus. mais púbere que eu, os pórticos das catedrais de roma. sou mais remoto que o próprio ancestral. Sou mais antigo (principalmente) do que eu. por agnaldo ribeiro

domingo, 27 de janeiro de 2008

eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoço. A sair do trabalho porque é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números aceita a não acreditar nas negociações de paz. E não acreditando nas negociações de paz aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso, um de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser ouvido. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que necessita, e a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assitir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bacterias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele, se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde a si mesma.

crônica de autoria da senhora Marina Colasanti.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Instataneo

Foto: agnaldo ribeiro
Eu quero dizer que o meu amor por você ultrapassa sentidos, lógicas, reações normais. Ultrapassa e fica ali, estacionado no acostamento, esperando a sua passagem.
por agnaldo ribeiro

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

eu e você.

Foto: agnaldo ribeiro
- Eu preciso conversar com você.
- Algum problema?
- Não, apenas vontade de falar com o meu amor.
- Nossa! Assim eu me emociono.
- Mas é mesmo para se emocionar.
- Fale então.
- Hoje eu fiquei pensando em nós dois.
- E?
- Você sabe há quanto tempo estamos juntos?
- Sei lá, uns 22, 36 anos?
- Não. Vinte e oito eternidades e quase três meses.
- Eu deveria lembrar de algo especial hoje?
- Não, nada. Eu lembrei e fiquei contando.
- Chegou a alguma conclusão?
- Sim.
- Qual?
- Que nesse tempo todo, eu fui muito feliz. Aliás, eu sou muito feliz ao seu lado.
- Nossa!
- A gente passou por tanta coisa junto. Faltou grana várias vezes, a própria relação sofreu alguns abalos, tivemos crises. Mas o saldo disso tudo é que eu sou muito feliz com você.
- Por que essa declaração de amor assim, de repente?
- Porque eu amo você. É isso. Eu te amo.
- Estou boba!
- Achei que era importante dizer, falar, assim, olhando pra você. Não sei o que seria de mim se a gente não tivesse se conhecido. Se naquele dia você não tivesse me olhado e aceito meu galanteio. Não dá pra imaginar nada sem você.
- Você nunca falou isso antes.
- Agora estou dizendo. De tudo que me faltou, ainda bem que você esteve sempre comigo, sempre presente. Certamente seria mais difícil e muito mais complicado. Acho até que eu poderia ficar sem qualquer outra coisa. Menos sem você. Às vezes eu penso que até sem ar eu poderia viver. Sem você não.
- Eu amo você.
- Eu também te amo. Muito. Não se esqueça disso nunca.

sou apenas um velho senhor

Foto: agnaldo ribeiro
ontem voltando de uma festa eu estava meio que absorto ouvindo uma música imaginária, mas num volume baixo servindo apenas de trilha sonora pro caso dela querer falar alguma coisa, mas ela também parecia quieta, apenas um pouco irritada com o trânsito e com minha falta de concordância verbal. vejo as pessoas todas muito irritadas e as minhas vulgares análises todas me levam a crer que em algum lugar do caminho elas tiveram opções erradas, mas não querem se arrepender, porque talvez em algum ponto elas consigam se sentir satisfeitas a ponto de acreditar que tenham feito as opções certas. são os tais dos planos que não se concretizam. são as tais das vontades irrealizáveis, e todos parecem meio frustrados e infelizes, mesmo quando contam piadas e riem com sinceridade. mesmo quando falam algo e querem se fazer notar. mesmo quando insistem em chamar a atenção. chamam a atenção para sua alegria, mas tudo que eu consigo ver é uma tristeza filha da puta, o tal buraco negro da alma, o tal buraco de 12 que não dá pra encher nem com todo o whisky do mundo. eu também já fiz planos como todo mundo e acreditei neles. a maioria não deu certo e eu fui ficando frustrado e infeliz pra caralho. aí ontem saí de casa e fui andando pela rua. estava frio, mas eu tava protegido com a jaqueta de general que eu comprei num brechó la em Cuzco. fui andando pela rua e me sentindo inacreditavelmente tranqüilo. não estou falando de felicidade ou de bem estar. tranqüilidade não tem nada a ver com bem estar. talvez seja só um item no cardápio. passei a tarde ouvindo música e pensando nos novos amigos. lembrei do dia que a namorada preparou um genial macarrão a gorgonzola e nós ficamos lá ouvindo punk rock britânico. tem ali naquele cd uma música originalmente gravada pelo B.B King... aquela capa daquele disco. meu Deus, a capa daquele disco. o garoto olhando a guitarra na vitrine. e aí na contracapa ele indo embora com a guitarra nas costas, pisando em poças dágua... eu já tive esse disco. eu era um garoto e também tinha planos. eu tive esse disco. e um dia eu vendi o disco. tava precisando de grana pra comprar comida. mas nunca esqueci daquela capa. e então na festa a gente falando tanta coisa, na cozinha, na sala, e eu pensando na capa daquele disco. e aí fui encontrando as pessoas nos bares da minha memória e pensando na capa do disco. entrei na sala de um bar e fiquei jogando bilhar. por sorte, demoraram pra conseguir me tirar da mesa. não queria sentar e nem conversar com ninguém. estava pensando.... e aí quando ganharam de mim e eu tive que me sentar com uma garrafa de coca-cola na mão, não queria olhar pra lugar nenhum. quando olhava eu via coisas, via as bolas caindo na caçapa, os amigos conversando em outras mesas, ouvia o burburinho do bar e eu ouvia os passos do garoto nas poças dágua. pensava em desejos que talvez não se realizassem. pensava em estratégias de fuga. e tudo parecia tão irreal. e eu queria que muitas coisas tivessem dado certo na minha vida. e eu queria que todos aqueles planos tivessem se realizado, como o garoto ambicionando a guitarra na vitrine. como se a vida fosse isso. como se fosse realmente possível colocar a guitarra nas costas e sair andando, pisando em poças d´água. mas há uma tempestade no caminho. há um lugar que você simplesmente não pode chegar. há tanta coisa atrapalhando. e tudo que você gostaria era simplesmente isso. esperar a tempestade passar, embaixo de algum abrigo, um toldo de armazém. ali... uma senhora voltando pra casa com os ingredientes de uma sopa de tomate, um velho sentado na soleira sem esperança nenhuma, sequer torcendo pra chuva passar. e eu não sei mais se a tempestade vai passar. eu nem sei mais se há um lugar no mundo pra sujeitos estranhos como eu que decidiram não mais retrucar a sorte. mas eu ainda não sou o velho sentado na soleira. então é melhor devolver a guitarra pro cara da loja e sair andando sem pressa, sem guitarra nenhuma nas costas, com essa chuvinha fria congelando minha alma negra. e no peito esse buraco enorme que todo o whisky do mundo jamais vai preencher. por agnaldo ribeiro

alma

O sorriso que eu vi era tão belo que mal reparei nos lindos olhos negros que o encimavam. O sorriso que eu vi era simples, mas complexamente simples. que acabei ouvindo pouco aquela voz que ela alegrava. Simples como a lua rosa da noite suja. Simples como a chuva fina que cai da nuvem branca e atravessa um sol educado. Simples como a neve que dança logo cedo sobre um lago frio.A esse sorriso, que me saciou em única apresentação, dedico estas simples palavras.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

certamente

Foto: Eduardo Paulo Coelho
porque fiquei sozinho no sofá branco da sala? Porque arrebatamento não cabe em palavra. Porque o que sinto e fascínio mudo. o deslumbre é silencioso, não passeia até os lábios. o que me toca não me vem à boca. me deixa ficar em silêncio. não quero que goste do meu gosto. não sou presidente de um clube. não quero que use meus amores - são meus, ninguém nunca os terá. cala a boca se a música é linda. não há palavra que diga. vá banalizar o seu apreço do outro lado da rua. sai da minha sala, eu não quero explicar porque amei. eu choro no cinema e você nunca vai saber. agora, se o sabe, é porque te esfrego meu alumbramento calado. alumbramento de interior, uma dobra no meu papel de alma. nem mesmo a ira, esta aqui, se sabe dita. é feito um deslumbre dormido de lucidez. é o meu escuro, meu jeito de apagar a luz. vai embora. deixa eu sentir o nó. é meu. por agnaldo ribeiro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

conversa

Foto: agnaldo ribeiro - praça do pôr do sol - sp
- adorei nossa "quinta", "sexta", sábado e domingão... Adorei nossa tarde, noite e desfecho...
adorei teu sorriso, adorei seu pedido, adorei o por do sol e adorei o misto!!!

- adorei descobrir que sou seu e quando não sou, sou meu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

secret feelings

Foto: Langley Free Press
The hidden feelings are the very secret truths
Os sentimentos escondidos são as muitas verdades secretas
that exists in a rainy morning when everybody
que existe em uma manhã chuvosa em que todos
pretends to be happy, usefull, clean and
fingimos ser felizes, úteis, limpos e espertos, mas
smart, but they are not, no doubt it.
não somos, quanto a isso, nenhuma dúvida.
por agnaldo ribeiro

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

na linha do tempo

hoje pela manhã abri os olhos hesitante, como quem abre a janela no inverno polar. pensei, preciso acordar para o primeiro dia. o primeiro dia de 2008. hoje quero sair e ganhar a rua e ver o dia, o verão com seu sol abissal. quero dissolver-me nas coisas, ser absorvido pelos sonhos como ontem fiz, no último dia de 2007 aquele doce moribundo. quero sentir o cheiro do mato, seguir o rastro da alegria. Um sitio, esse vilarejo próximo a metrópole guarda para mim, como numa dessas caixinhas de tesouro, o primeiro dia do ano. quero que o dia seja pandora-ao-avesso e a caixa que me abra seja repleta de beleza. sonolento ainda em estado de vigília sonho com a vida. imagino-me velho senhor, com os olhos mirando o velho ano, como quem fia o tempo, e o peito aspirando o novo. meu coração temeroso treme. o futuro sumptuoso está logo adiante, ele é amanhã, o dia seguinte. ele é uma onda que, ao chegar, molha a areia de nossa vida e em 365 dias (às vezes 366) vai voltando novamente, mar adentro, agarrando grãos, reboando, cantando nênias, retumbando, arrastando conchas, marejando. meus olhos, já velhos de alguns anos, sabem que esse mar imenso espera silente minhas últimas horas e meus instantes. mas é novo o ano. é um novo ramo. e o velho, logo, já estará longínquo. mais amor, mais saúde, mais alegria, mais conquistas, grita o mundo em festejo. todos contam os dias, que teremos à frente, todos esboçam os planos e abraçam os parentes. é hora, é tempo, adiante. se esquecem os tormentos, se enterram os medos - por poucas horas, até o dia seguinte. e são mil pés que pulam as ondas e são mil bocas, que trituram as uvas e são mil línguas que degustam o champagne. contudo tantos outros que sozinhos no frio da pobreza esperam, aguardam o novo ano, para que tudo seja diferente. ou esses pobres, já amargos, temem que piores tragédias os acometam. mas para todos: o que passou é seguro, o que vem incerto. e eu em sonho ainda imagino o barco, a nave do ano novo, navegando nas águas de flores, num jardim secreto, onde brotam palavras lindas, sonhos, projetos ...
seja bem vindo ano novo!

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!