terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

um sopro de certeza

Foto: agnaldo ribeiro
Era uma manhã fria de junho e os carros rasgavam a grandiosidade da metrópole. No rosto levava as marcas do tempo e das desilusões, escondendo nas recentes rugas o mais amargo devaneio da sua vida. Cenhos franzidos e sorrisos apertados pela massa humana que também rumava às lavouras de concreto, um veneno polivalente que transpassa o bosque rumo à labuta perene, lugar de gente amargurada e de gente divertida, de gente falsa e desonesta, lugar de velhos descontentes em seus cubículos cingidos pela solidão de envelhecer com os valores decadentes. Vento com cheiro de futuro que espanca o corpo pela manhã.

Mas há um momento em que tudo se confunde. Sorte, força, saudade e desejo se diluem na imaginação. É a alegria que está aqui na boca do estômago e que quer transbordar, fazendo coçar as idéias.

Foi quase como se o céu se abrisse e o vento sussurrasse todas as respostas, fazendo estrelas despencarem pelo chão com a violência de tudo. Um sopro de certeza

Depois do diagnóstico correto, só queria escutar o silêncio absoluto, o silêncio da lua. Quero paz nesse dia. Quero parque bucólico, fotografia, beijo na boca (de certa pessoa) e acordar tarde.. Flutuar por cima da megalópole tão hostil e tão acolhedora ao mesmo tempo.

“Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as coisas boas.” (Nietzsche).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

são paulo

Fotos: Natalia Atanasov & Agnaldo Ribeiro

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

pra você!

Foto: agnaldo ribeiro

tudo o que quero lhe dar hoje são rosas. uma flor, singela e complexa. quero dar rosas a você nos momentos mais inconvenientes. quero que elas lhe cheguem quando estiver no ponto de ônibus carregada de pacotes, para que decida entre o mundo prático das compras parceladas e o mundo abstrato e incerto de um buquê. que elas sejam entregues quando estiver a dar aulas e o moço as ofereça fazendo uma mesura diante dos alunos. e você não saiba o que dizer a tais salamaleques. quando estiver com uma amiga, a conversar sobre como o tempo passa rápido hoje em dia. e também quando, depois de ter recebido essa flor e estiver se despedindo dela, receba outra. no banho, você ouvirá a campainha tocar e atenderá com espuma na orelha esquerda. mais rosas. no almoço, em um restaurante, chegarão as flores no momento de pagar a conta. de madrugada, alguém baterá à porta e deixará o presente como se faz a um órfão de filme antigo. na sala de espera de algum dentista, rosando sua espera e a sua face. e os outros pacientes ficarão sem saber se olham ou ficam apenas com dor de dente. na estrada, no mato, na fazenda, no táxi, no ônibus, na chuva, no sol, quando estiver nua, quando estiver vestida, quando estiver feliz, quando estiver triste, quando estiver apenas muito pensativa, quando estiver calada, pois está com sono, quando estiver correndo, andando, empinando pipa, jogando basquete, cozinhando, passeando, esperando e partindo, lavando e secando. até em sonhos quero que estas minhas rosas lhe cheguem e que elas permaneçam quando acordar, enchendo-lhe o quarto de pétalas dorminhocas. a cada piscar de olhos, uma rosa. a cada passo, outra. a cada dia, uma nova. e de matizes de vermelho mais vermelhos e mais nobres e belos que se poderia esperar daquilo que é real e todo mundo pensa que não é. são dias de tempestade. porém posso observar às ondas, elas são belas e não mais assustadoras. é que estou apaixonado, mas você me ensinou a andar sobre as águas. ninguém me vê e não preciso mais salvar o mundo. por isso lhe dou estas rosas. você me deu coisas sem oferecer e sem que eu pedisse. é como chegar à vida. aqui estamos nós. de surpresa. inconvenientemente felizes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

essa búlgara existe mesmo?

Foto: agnaldo ribeiro
Sim... Ela e uma moça galáxia de corpo ondulante que dobra o tempo e assalta à tarde, todavia, simples com nome de búlgara, mas brasileira, brasileiríssima, com belas cachoeiras negras das madeixas cheirando a sol e sombras. Ela e uma mulher. Muitas vezes feminina e muitas vezes masculina. Ela e uma mulher que ama a escrita e muitas vezes a esquece. Gosta de falar e às vezes dentre mil palavras nunca diz o que queria mesmo. Porque ela e única. Porque ela e uma mulher e todas as mulheres que falam de si e se calam em si. Eu acho que para pensar e falar da búlgara e necessário entender que cada mulher é uma poesia feminina, uma farsa, uma mentira, um drama, a mais pura verdade, uma beleza rara, elas todas. Chinesas, japonesas, brasileiras, argentinas, venezuelanas, colombianas, alemãs, russas, bulgarianas, tchecas. Elas todas as nacionalidades. Mulheres são rios e oceanos. E são ventos, tormentas, enchentes. Mas a Búlgara e única e é todas elas. Ela e o amor que abruptamente rompe em palavras, sentidos, tormentas, aliterações, antíteses, metáforas e deságua em calmas palavras. Ela e o amor de todos os que ainda vivem pra arte de amar e deixar nascer do ventre o que dele pode brotar pelo amor: lutas por causas dignas, poemas, filmes, quadros, seres humanos, prosas, esculturas, combustões íntimas, sentidos abissais, incoerências, enfim, tudo que pode ter força por amor. Uma poesia feminina que brota dos seus olhos e eles choram. Ela e uma pessoa rara, delicadíssima e tem a calmaria de uma canção de ninar. Ela e uma mulher e possui o saber de todas as mulheres. Essa e a Búlgara,
pela qual você gostaria de ter informações. por agnaldo ribeiro

tempo

Foto: Natália Atanasov
o tempo existe para
que tudo não
aconteça de uma
só vez.
(Nicolas Behr)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

louco?

"a única diferença entre um louco e eu, é que eu não sou louco!" (Salvador Dali).

Eu acho lindo, este retrato do Dali. A foto chama-se “Dali Atomicus” e foi feita pelo amigo do pintor Philipe Haslman em 1948. A execução de “Dali Atomicus” envolveu quatro assistentes. Um segurando e arremessando dois gatos e outro com um gato só, a mulher de Halsman segurando a cadeira em primeiro plano à esquerda e outro assistente com um balde de água. Todos tinham que fazer tudo sincronizadamente, água, gatos e pulos. Foram 26 tomadas, 26 enxugadas no chão, 26 pulos de Dali e 26 arremessos dos gatos para conseguir a composição que Halsman achou satisfatória. Foram 5 horas no estúdio, e ao final, os gatos estavam em bem melhores condições que os humanos envolvidos. Sociedades protetoras dos animais acusaram Halsman e Dali de crueldade com os gatos, e eles convidaram os agentes para visitá-los no estúdio, mostrando os gatos dormindo em almofadas de veludo a sendo alimentados com sardinhas portuguesas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

um ano de muita distância

Foto: agnaldo ribeiro
Numa tarde de quase-verão
com feições de outuno
e sensações de inverno
falo baixo
falo baixo para que não me escutem
para que não consigam nem ouvir
o que tenho a queixar
pois muito boa é a vida
e pena que passa rápida
depressa como aquele instável ano de 2007
estacionado pela metade
um ano de pouca entrega
de muita semente
de pouca colheita
de pouca acolhida
e muita expulsão
um ano de muita distância
e pouca risada
um ano circunspecto
involuto
adiado
o ano dos desencontros
um ano amuado

sábado, 2 de fevereiro de 2008

nina, volte aqui!

Fotos: agnaldo ribeiro
nina, volte aqui, não se perca nessa estrada horrorosa, as lesmas vão te morder, existem muitas falhas na pista, não ande por ali, seu pé vai cair num buraco e seu tornozelo ficará torcido e esmigalhado, vai doer muito, nem se você beber morfina a dor vai passar, não vá, não vá, olha a situação desse caminho, tem taturanas, também chamadas de lagartas de fogo, justamente porque queimam a pele de quem encosta nelas, e é certeza que você vai encostar numa taturana se sair andando por essa estrada, não é praga minha, é só um aviso de quem te quer bem, é um aviso de quem sabe que o teu lugar é ao meu lado e não indo embora por alguma estrada tosca, alguma estrada cretina, que só vai te ferir, por isso não vá, não vá, não vá, se é por falta de adeus, você não vai embora, porque eu não te dou adeus, eu te dou o contrário do adeus, e te dou meu coração, o meu pulmão com todo o ar que está dentro dele, te empresto a minha alma, em troca você me dá a sua e assim a gente fica junto e nunca ninguém vai embora, porque essa estrada não presta, ouvi dizer tem baratas nojentas, é terrível, por isso fique, fique, fique aqui, fique comigo, fique, fique. por agnaldo ribeiro

as mãos do acaso

Foto: agnaldo ribeiro
amo esta menina que beijo. sonhei com ela hoje, sonhei que ela cantava sentada na praia com fogueira e estrela cadente. de repente o sol nascia e ia embora em um minuto, vezes seguidas, e as luzes e sombras todas se desenhavam na pele dela. alaranjada, avermelhada, urucum. ela abria a boca pra cantar, e fechava os olhos, e jogava os cabelos pra trás. ela cantava uma musica inaudível aos tímpanos, reverberava expressões internas e humanas, mundanas. ela se enraizava na terra, virava uma arvore bela, que quando o vento tocava, cantava, cantava, cantava... um beijo menina. espero que alguma coisa boa aconteça pra você hoje!

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!