sábado, 29 de março de 2008

nos bastidores do agora, eu penso em você.

Foto:agnaldo ribeiro
É ela que me puxa, que atrai, e que trás para perto o que quero. Meu ímã, meus extremos, meu palco de shows incomparáveis. Minha loucura explícita, minha caixinha de sonhos arrebatadores. Meu calor, meu frio, meu meio termo não tão meio assim. A âncora que me pára, o vento que sopra a vela que me leva, e leva... leve. Meu conserto, meu acerto, meu desarranjo. Meu erro, minha certeza, minha desilusão. Minha volta ao mundo sem sair do lugar. Meu A, meu B... meu N. Meu ponto chave. Meu T.
Subliminar Sutil, como quem não tem pretensão de marcar. Marcante, como quem não tem intenção de se deixar esquecer. Risonha, ponderada, intensa, verdadeira. Audácia comedida, inteligência nas entrelinhas. Caractere por caractere, byte por byte. Um lego. Um ego. Um... algo. Um toque, um "quê" de especial. Talvez prematuro, porém complexo, amplo, vasto."Vastas emoções e pensamentos imperfeitos..."Descrição, que por sinal, não é minha. Mas, talvez seja a melhor forma de expressar isso. Seja lá o que isso for...

quinta-feira, 27 de março de 2008

tabu

Foto: agnaldo rbeiro
As cidades são imensos vãos silenciosos, onde é preciso gritar. As pessoas sabem: não vão amar, não vão viver, vão sucumbir se não gritar. É preciso preencher esse vazio gritando. É preciso ser histérico. Eu mudei o meu jeito de te ver e vou salvar as mudanças antes de fechar os meus olhos. Os principais detalhes dos sonhos esdrúxulos que tenho, anoto num papel que deixo na cabeceira da minha cama. Não é nada disso. Os principais detalhes dos sonhos esdrúxulos que tenho, gravo em lembretes no meu celular. Até porque poucas coisas realmente têm importância. Eu quero que o carro do ano exploda e leve com ele todas as suas prestações caras. Eu quero que meu apartamento continue sendo alugado, não quero comprar nunca um apartamento. Eu quero que as roupas de grife saiam andando do meu armário e sumam da minha vida. Os tabus hoje em dia são peças muito delicadas. Antigamente, não. A qualidade dos tabus era infinitamente superior. Eles vinham em embalagens resistentes, protegidos por plásticos-bolha; eram feitos de metal ou de madeira de lei e era muito difícil quebrá-los. Atualmente, não. Os tabus são feitos de plástico, vêm embrulhados num papel vagabundo e quebram muito facilmente. Vivemos num tempo em que os tabus se quebram a todo instante. Pior de tudo é que as fábricas de tabus são verdadeiras máfias e ai de quem reclamar da qualidade de seus produtos. Eu soube de gente que teve a cara arrebentada a golpes de tabus. Nada disso. Eu vou guardar você: no meu coração, como eu guardo no armário da cozinha aquele bando de sacolinhas de supermercado. Um dia, eu também posso precisar de você. Um dia, você também pode me ser útil. por agnaldo ribeiro

que eu possa descansar em paz

Foto: agnaldo ribeiro
Eu, que eu possa descansar em paz eu, que ainda estou vivo e digo: que eu possa ter paz no que tenho de vida. Eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo. Não quero esperar como aquele piedoso que almejava uma perna do trono de ouro do Paraíso. Quero uma cadeira de quatro pernas, aqui mesmo, uma cadeira simples de madeira. Quero o resto de minha paz agora. Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora, combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo, minha cara de amante, minha cara de inimigo guerras com velhas armas, paus e pedras, machado enferrujado, palavras, rasgão de faca cega, amor e ódio, e guerra com armas de último forno, metralha, míssil, palavras, minas terrestres explodindo, amor e ódio. Não quero cumprir a profecia de meus pais de que vida é guerra. Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma. Descansem-me em paz...
(Yehuda Amichai, poeta israelense (1924-2000) Tradução de Millôr Fernandes)

domingo, 23 de março de 2008

gigantescos olhos búlgaros

Foto: agnaldo ribeiro
TU que me taTUa um desenho novo a cada dia
que me ensina e eu te ensino
como TUdo tem que ser
prazeres repentinos
apressados
desejos natos, pre-natais
imediatos
TU que se desenha linda em toda luz
que te esculpe de olhos fechados
ate que a manhã os acorde
vermelhos
negros
LINDOS.

sexta-feira, 14 de março de 2008

sobre ser MAU

Foto: agnaldo ribeiro
Queria me permitir a ser mau eventualmente.
Queria me permitir a não ter piedade com quem, definitivamente, não merece.
Queria me condicionar a colocar Maquiavel na prática, só por alguns momentos.
Queria não ter consideração por quem não tem por mim.
Odeio ser tão cristão assim.
Odeio não ter direito à articular vinganças & revanches.

quarta-feira, 12 de março de 2008

distância nula

Foto: agnaldo ribeiro
O meu nome é José e eu venho de uma cidade que tem uma orquestra. Uma cidade que tem um lago e uma igreja que aponta para o céu.
***
Embora longe na distância medida pelo espaço físico, o meu amor está comigo todo dia. Caminha comigo a cada vez que vejo a luz do entardecer .

assim me quero

Foto: agnaldo ribeiro
Tenho pensado muito em tudo. E tudo tem pesado muito em mim. Mas o peso que pesa em mim não é nada, comparado ao peso que pesa sobre tantas outras pessoas. Todo mundo tem sempre pelo menos uma queixa, eu tenho várias, mas, ultimamente, sempre que me perguntam como estou, respondo:
- Estou bem, mas vou ficar melhor.

respect?

No bar cult, ninguém aplaude os músicos.
Cada cliente está em seu próprio palco e alucina platéias.
Senhoras e senhores, respeitável público: com vocês, a decadência.

quarta-feira, 5 de março de 2008

amem

Sentado neste banco de tribunal, enquanto minha tristeza esta sob investigação descobri que
durante anos rezei o Pai Nosso com o seguinte final: e deixar-me cair em todas as tentacoes, mas livrai-me da depressao, Amem!

Foi então que percebi que cair nas tentações era a causa primeira das minhas depressões...e deixei de rezar. Amém!

segunda-feira, 3 de março de 2008

acorrentados

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
(Paulo Mendes Campos)
Texto extraído do livro "O Anjo Bêbado", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 105.

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!