sábado, 31 de maio de 2008

um velho ranzinza

Foto: agnaldo ribeiro
Jose Borges queria ser um mero espectador da vida. Dezenas de vezes teve a oportunidade de deixá-la passar, ilesa, livre, mas não conseguia controlar seus impulsos e sempre acabava por retê-la entre os dedos. No último minuto, quando já era uma sombra ínfima, uma nesga de luz, Borges se agarrava à vida, às vezes com a ponta das unhas, e a trazia para perto de si. Bastava um leve sopro, um tique no canto do olho, uma fagulha ou um odor estranho e lá estava ela, insistente, espezinhante, atenta ao menor rumor da sua existência.
Toda vez que isso acontecia, Borges sentia um remorso, uma coisa ruim, um forte enjôo atacar-lhe as vísceras. Corria então para o banheiro, se desafogava e ficava prostrado à beira da pia por horas, arfante, com os bofes ainda na garganta. Automedicava-se, tomava xaropes, preparava infusões, chás de folhas amargas e raízes secretas. Chegou mesmo a recorrer de antigas simpatias, mas sem sucesso. Com isso, rejeitou também as rezas e os conselhos dos mais velhos.
O estado de Borges piorava. Sua reclusão aumentou, tornou-se mais taciturno, nunca mais o viram no mercado nem na praça, onde costumava passar rapidamente entre os transeuntes, feito um fantasma. Evitava ser reconhecido, mudava o lado da rua para fugir de um bom-dia, uma piscadela, um esbarrão. Tinha as janelas da casa muito cerradas, os portões fechados com grossa corrente, o mato a tomar conta do quintal, exalando um ar propositado de ausência e abandono.
Era uma quinta-feira ao fim da tarde, Borges caçava uma irritante penumbra que se esgueirava pela sala quando escutou o trinco da porta girar, astuta e sorrateiramente. Logo adivinhou quem era. Aos berros, maldisse, xingou, pediu aos prantos que o deixasse sozinho, que não o procurasse mais. Mau abriu uma fresta, porém, lá estava a vida lhe sorrindo. Borges não se conteve, puxou-a bruscamente para dentro.
Todo o quarteirão veio saber do escândalo, ouviram móveis sendo quebrados, vidros estilhaçados, tapas e gemidos. Foi tamanho o qüiproquó que falaram até em encenação.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

por tudo...

por tudo eu agradeço,
desde a hora em que amanheço,
até o instante de dormir.
agradeço por ir,
por vir,
por ficar,
por seguir.
pela dor de cabeça,
pela pança e,
embora eu não mereça,
por tanta esperança.

sábado, 17 de maio de 2008

beleza

Foto: agnaldo ribeiro
Tereza chorava desolada, deitada na cama interminavelmente macia. Estava recordando, melancólica, debruçada na fina linha do tempo que abria a janela da tarde contra um céu azul. Os delicados fios do seu cabelo desciam um após o outro até formarem a certa altura do pescoço, um análogo repouso na pele macia e branca. Oito botões desenhavam uma delicada vertical na sua blusa vermelha, deixando a vista dois pequenos seios nacarados e secretos. Eu a vi, mas sem saber o que dizer. Para me consolar resolvi abstrair suas lágrimas, e durante certo tempo me deleitei com essas diminutas fontes cristalinas que nasciam no ar e se esborrachavam no lençol branco com delicadas flores azuis. A vida esta cheia de belezas assim. por agnaldo ribeiro

quarta-feira, 14 de maio de 2008

bem no fundo

*
no fundo, no fundo,bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
*
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo
*
extinto por lei todo remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
*
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos pra passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
(PAULO LEMINSKI)

um tostão da minha voz....



a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!