sábado, 30 de agosto de 2008

uma imensa saudade

lá numa cidade cujo solo corrido por cavalos bárbaros troveja passos e prenuncia chuva, penso em você. na cor da tua blusa. pra que lado teu cabelo acaba de soprar... a penumbra, vista da minha janela que já não é minha enche meus olhos de silêncio e poesia. de concreto mesmo, neste momento, o vício em coca cola e doce de leite. e o prazer de sentir o perfume dos sabonetes especiais que foram esquecidos em algum lugar da casa. mas até isso, muito em breve, também vai passar. em algum tempo perdido, a paixão fulminante também passou por aqui. só não passa a vontade de viver uma vida inteira ao seu lado. por agnaldo ribeiro

terça-feira, 19 de agosto de 2008

a liberdade absoluta de desejar

Foto: agnaldo ribeiro
não se perca nessa estrada horrorosa, as lesmas vão te morder, existem muitas falhas na pista, não ande por ali, seu pé vai cair num buraco e seu tornozelo ficará torcido e esmigalhado, vai doer muito, nem se você beber morfina a dor vai passar, não vá, não vá, olha a situação desse caminho, tem taturanas, também chamadas de lagartas de fogo, justamente porque queimam a pele de quem encosta nelas, e é certeza que você vai encostar numa taturana se sair andando por essa estrada, não é praga minha, é só um aviso de quem te quer bem, é um aviso de quem sabe que o teu lugar é ao meu lado e não indo embora por alguma estrada tosca, alguma estrada cretina, que só vai te ferir, por isso não vá, não vá, não vá, se é por falta de adeus, você não vai embora, porque eu não te dou adeus, eu te dou o contrário do adeus, e te dou meu coração, o meu pulmão com todo o ar que está dentro dele, te empresto a minha alma, em troca você me dá a sua e assim a gente fica junto e nunca ninguém vai embora, porque essa estrada não presta, ouvi dizer tem baratas nojentas, é terrível, por isso fique, fique, fique aqui, fique comigo, fique, fique.

a janela do teu olhar

Foto: inpress brasil
Os dias se passaram, o frio chegou, a madrugada de ontem teve uma lua das mais bonitas. E eu continuo aqui pensando na verdade e na mentira. Hoje, proponho um pacto. Você olha pra mim e diz simplesmente: eu te amo. Hoje nada em mim vai te incomodar. Minha ansiedade até vai se transformar em um pouco de charme. Meu cheiro suado será agradável, meu beijo, o melhor do mundo. Estar comigo será um grande prazer. Será como sentir a vida toda num segundo e torcer para que esse tempo não passe nunca. Nunca. por agnaldo ribeiro

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

a dignidade do tédio

Foto: Tacio Philip
Andei, ao longo dos anos, a construir uma pirâmide, até ganhar coragem para a escalar. Mas ainda penso na eventualidade de o ar lá em cima ser tão rarefeito que me faça olhar com mais cuidado a dignidade do tédio... Estarei, finalmente, preparado para todos os perigos?
por agnaldo ribeiro

esta e a sua xícara de café

...
Ela se sentia sozinha pela primeira vez em muito tempo, naquela noite anormalmente fria de outono que principiava a neblinar. Era madrugava e os dedos doíam para acender o último cigarro que tinha (ainda era Free, roubado de um passante, tão leve que nem chegava a entorpecer). Equilibrava-se sobre o salto, depois de duas ou três cachaças - para esquentar a alma, para procurar estrelas, para tropeçar pelos caminhos.Caminhava mastigando conclusões que há muito não pensara. Estava cansada de amores malogrados, que se esvaiam sem um último suspiro sequer. Estava cansada de suas próprias dissimulações gratuitas, que não a acrescentava, nem matava, nem rompia, nem morria. Como se congelada num poema de Murilo Mendes:
"Me rebelei contraDeus
Contra o papa,
os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões".
...
Deu a última tragada no cigarro, fazendo a brasa fumegar - seu rosto iluminou-se de laranja e, por um momento, não conseguiu deixar de soluçar. Mas foi um soluço sem lágrima, como se engolisse uma mágoa antiga. Porque, quando levantou os olhos, pondo-os no céu, percebeu que as estrelas ali continuavam; e ela, tão viva e forte, tão plena e segura, não tinha outra escolha além de sorrir. Pelo fortalecimento. Pela vitória. Pelo princípio de racionalidade. Pelo futuro que se desenhava. Abriu a porta de casa com um certo embaraço. É a cachaça - pensou - talvez um pouco de emoções demais. Lembrou-se das tardes de Pinheiros, as tardes poeirentas, os tambores da Jam, mas desta vez não soluçou: teve que admitir a irreversibilidade das coisas. E se jogou no sofá, na tentativa de um sono intranquilo. E, só por curiosidade, ligou a tevê. Passava um filme daqueles preto e branco que custou a reconhecer. Era Gilda. Rita Hayworth, a mulher mais linda que já existiu no cinema. Gilda, a mulher que todo homem já se apaixonou. E mesmo Gilda, tão lancinantemente bela em Buenos Aires, também tinha os seus percalços. Também caia em suas ciladas particulares. Também bebia demais, chorava eventualmente, ficava infeliz. E foi com essa imagem de Gilda, paralisada frente a impossibilidade de concretizar o que desejava, que pegou no sono...
por agnaldo ribeiro

sábado, 2 de agosto de 2008

o peso de um sentimento

penso que o amor é pesado demais para um tronco humano. ele faz a coluna ora ereta ora torta. ele deforma o corpo e transtorna o pensamento. num movimento brusco acaba a valsa. num movimento lento inicia todo sofrimento. o amor e um reinado ilúcido. é uma terra vaga, soterrada. em cada nova letra é o amor imundo e belo, sublime e sujo. delicado demais pra patas de gente. feito para seres imaginários, demasiados fortes, demasiados singelos.

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!