terça-feira, 28 de outubro de 2008

encontrar suas mãos

Foto: agnaldo ribeiro
no inicio desta noite profunda
queria contar verdades
enumerar atrocidades
mas a moral me impede.sem a mediação de palavras resguardo silêncios.
finjo que aceito esta solidão perversa de gente
que precisa estar vivo.
eu sei...da minha janela sei dizer onde há uma super nova
um buraco negro,ou uma estrela azul.
só não sei aonde esta você agora no inicio desta madrugada.
fora disso tenho em mim todo sentimento do mundo,
mas guardo-o para gente real,
no sigilo das nuvens.
onde os problemas não tem sabor de limão. por agnaldo ribeiro

sábado, 25 de outubro de 2008

for the rest of my life

Quando meus braços não suportarem mais a carga da parte que me cabe e a canga da zomba pesar sobre minhas costas, ainda assim hei de incluir-te na bagagem, carregar-te na valise dos meus dramas, arremedar e lamentar o fracasso, que não consigo largar-te, que não consigo realizar as mínimas tarefas com juízo, que não consigo desligar da retina a tua transmissão, que não consigo frear o impulso de pensar tanto, autômato, anestesiado, inerte, súplice, ambíguo, que tu partas, que tu permaneças, que tu partas logo de uma vez, assim exageradamente do coração que te aprecia tonto: um dia ele se enfara e pára.

fique

quando meus braços não suportarem mais
a carga da parte que me cabe
e o dique do tempo se romper
e os relógios não conseguirem represar
as horas escorridas de tanto imaginar-te onde,ainda assim hei de incluir-te na bagagem, carregar-te na valise dos meus dramas, arremedar palavras para definir-te,
eu, autômato,
eu, anestesiado,
eu a estar inerte,
com o fardo da tua falta a meus pés
e as mãos súplices casadas com minha voz enroscada,
o mundo é mau,
o mundo é mau,
o mundo é mau,
o mundo é mau,
não partas assim exageradamente
do coração que te aprecia tanto: um dia ele se enfara
e pára de pedir que fique
um dia ele
se enfara e pára.

sábado, 11 de outubro de 2008

mulher objeto

Foto: agência reuters
A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, querem amar e ser amadas, mas posam como imaginam que os homens as querem. Sim, os homens aceitam esse tipo por uma ou duas noites, até que apareça uma com menos rugas e mais beleza. Antigamente a prostituta era dócil e te servia.O homem pagava para ela "não" existir. Hoje, a cortesã moderna ´existe´ demais. Diante delas todos se arriscam a brochar, apesar de deseja-las como nunca.Quem se atreve a cair nas engrenagens destes "liquidificadores"? A atual "revolução" da vulgaridade parece libertar as mulheres. Ilusão à toa. São apenas escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades. O modelo de mulher de hoje é a prostituta transcendental, a mulher robô, nada mais que uma máquina- de-prazer sem alma.
(Trechos extraídos de crônicas do sr. Arnaldo Jabor)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

a promessa

Prometo pela noite que nos achamos, amar e respeitar e ser fiel, e ser só teu. Juro com tal disposição, com tal força e tal empenho, que se quebrar o juramento virarei um nada, um poço, um vão de medo. Juro pelos ossos sobre o tempo, pela pele sobre a carne, pela carne sobre os ossos, que te farei feliz, protegida e amada por um milhão de anos, por toda a vida. Mesmo as coisas triviais, serei seu, com palavras, atenção, gentileza. Eu prometo por todas as sombras da terra, por todas as fúrias do mar, em ritual silêncio, na dor feroz e na alegria forte, juro entre nós estar vivo até o limite dos tempos, e que a morte não separe o que existe.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

bem temperado

Foto: la tentation du suicide Tem gente que faz assim: não diz nem não, nem sim. Nem talvez. São os cozinheiros da vida alheia: cozinham os outros, em fogo baixo, sob o lema "melhor deixar aí perto, vai que eu preciso depois". E tem besta que aceita ficar no fogo, cozinhando. Tem besta que espera.

aqui começa um novo...começo.

eu fui dormir achando que hoje era um deserto, que hoje tudo era aquele ácido vazando daquele caminhão no rio tiête, eu fui dormir achando que hoje não havia nada além do destempero, do despreparo, do desplante, do desalento, eu fui dormir. achando que hoje era um cara assassinado à queima-roupa, que hoje havia morrido do nada, bestamente, eta, vida besta, meu Deus. eu fui dormir achando que hoje tudo era em letra minúscula e só Deus podia começar com maiúscula, eu fui dormir achando que hoje tudo onde a cabeça deita é só tijolo, eu fui. dormir achando que hoje tudo era coca-cola que era cicuta, que hoje tudo era o calçado que só aperta, que hoje tudo era um frasco de colírio com ki-boa dentro. eu fui dormir achando que hoje tudo era um livro do joão cabral só na capa e páginas trocadas pelo que eu escrevo, eu. fui dormir achando que hoje tudo era um bando de reticências... por agnaldo ribeiro

a arte de perdoar

No meio do mundo, de tudo o que fica da vida que passa, o mais importante é: perdoar. não fica a carne, não fica a casca, não fica o dinheiro: só fica a alma, que é o recheio, e é nela que mora a capacidade de passar por cima do que magoa, fere e dói, mas não pode doer sempre, porque ninguém foi feito para sofrer. a mágoa faz estacionar; é um grude que prega na sola dos pés e não deixa sair do lugar e andar adiante. o rancor é pegajoso e, em muitos casos, chega a ser gosmento. no começo, o perdão é um exercício difícil de fazer. mas é só praticar e, como tudo que é complicado, perdoar também se torna fácil: simples de fazer, sofisticado de viver. então, de tudo o que se preza, saber perdoar é o maior ato. e, de tudo o que se reza, a melhor oração é agradecer: bendito o coração que perdoa. é dele o reino do céu — já aqui na terra. por agnaldo ribeiro

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!