quinta-feira, 27 de novembro de 2008

no caminho do sol

Foto: Wordpress
Hoje sou mais que uma paisagem, sou mais que um pássaro, mais do que uma cara bonita, um canteiro de lírios. Sinto-me assim, mesmo depois de chorar sozinha na escuridão. Sou apenas uma mulher, dentro de uma camiseta vermelha, cavando cada passo nessa estrada enlameada de mão única procurando por coisas especiais dentro de mim. Hoje, no fundo do espelho da minha alma corria a paisagem do entardecer e eu queria abraçar-te. Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo. Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras. Queria poder cair de joelhos e chorar. Encontrar uma maneira de acalentar a minha dor. Mas sou apenas uma mulher procurando por um sonho. Uma mulher procurando pelos sonhos que vivem em mim. Estou na procura da minha melhor parte. Sou aquela ingênua de sorriso calmo e palavras puras que pode dormir profundamente toda a noite com nuvens entre os joelhos. Posso ter meus dias de ódio, meus momentos de reflexão... Pensam que sou maluca, ou coisa parecida... Posso admitir. Não me preocupo. Até mesmo os heróis têm o direito de sangrar. Caminhar nas páginas deste roteiro esta me fazendo descobrir um mundo que circula no vento, a sorte oculta de cada planta, o perfume das flores, a mais sagrada das verdades que despenca nos abismos do desespero, quando chega a dor, essa, que trabalha silenciosa preparando todas as coisas desta vida. Poderia chorar aqui, ao lado das pétalas vermelhas abertas onde o sono nem sonha. Onde as cigarras cantam e os trovões caminham por cima da terra, agarrados ao sol. Mas sou apenas uma mulher procurando por um sonho. por agnaldo ribeiro

sim senhor

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Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.
Johann Goethe
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terça-feira, 18 de novembro de 2008

amanhã de manhã eu vou embora

Foto: Wordpress
A luz trêmula dos faróis de um carro brilha por entre as árvores. Aqui da minha janela no nono andar a tarde desliza para o infinito. Os prédios muito calmos comemoram a chegada dos seus moradores, porque e sempre assim, todo domingo parte deles são abandonados e ficam tristes, agora, por exemplo, uma janela esta a cintilar de alegria porque uma garotinha de seis anos esta debruçada sobre o quadrante desta janela que ficou imóvel durante todo o dia. A noite chegou, com ela pequenos lampejos de isolamento, solidão, alegria, palavras e sorrisos abraçam o acaso. Agora dezenove horas de um domingo descorado nenhum evento importante aconteceu no decorrer do tempo, com exceção da garotinha da janela que acenou para mim, e sorriu. Às vezes algo que representa quase nada para a gente, significa tudo na vida de alguém. E é preciso pouco, muito pouco, para fazer o dia do outro diferente, especial. Amanhã de manhã eu vou embora. E hoje tive a oportunidade de ficar em contato comigo mesmo o tempo todo. Somando tudo o que falei, creio não ter pronunciado mais de vinte palavras ao longo do dia. À tarde, chamei o Gabriel Garcia Márquez e me sentei na praça. As desventuras de Amaranta, José Arcádio, Pilar, Úrsula são companhia da melhor qualidade. Que não me impediram de tirar um bom cochilo, ali mesmo, diante de tantas janelas alegres e tristes a me contemplar. por agnaldo ribeiro

uma tarde chuvosa

Foto: Wordpress
Chove sem parar a quase uma hora. As árvores, alegres, viscosas, muito lavadas agitam-se ao sabor do vento. O tapete espesso de folhas, que cobre o chão do jardim, esta encharcado. Parado atrás das janelas de vidro eu via gotas em forma de água descer das saias estratosféricas do universo até o chão. Gosto do barulho da chuva, do cheiro que ela deixa impregnado no ar depois de ir embora, tudo isso me fascina, apesar do pensamento contrário de algumas pessoas, neste momento estou observando as folhas caídas de uma árvore secular, que agora serve de passarela para uma formiga, que sobreviveu e tenta achar o molhado caminho que a leve para casa. A natureza às vezes se revela completamente incapaz de mudanças no humor daqueles tripulantes de um dia assim, agora, por exemplo, vejo uma senhora debaixo do guarda-chuva equilibrando uma sacola na mão esquerda, mesmo com a falta de proteção das linhas resignadas e frouxas da sua sacola, ela permanece calma com um discreto sorriso nos lábios. Olho para os meus pés secos e confortavelmente aconchegados dentro do meu all star e penso que também seria agradável vestir sandálias com meias secas e quentes nos pés daquela mulher que espera lentamente o seu transporte. Ainda ouço o estalo intermitente das gotas nas linhas imaginárias do vidro liso e frio, nos últimos dias tenho ouvido essa infindável sinfonia que tenta com sua triste perseverança desmanchar e diluir o mundo. Passeando minha inércia pela via molhada do espaço, também circulo como as nuvens em variações intermináveis; Quando chega o estio a tranquilidade provisória não parece pertubar tanto a cidade ensopada, a grande nuvem negra se arrastou para o leste. Depois desse momento de melancolia experimento dar uma sacudida e animada no espírito, saindo um pouco para espiar o tempo. Teve jeito não: as amigas ventania e temperatura baixa me receberam com pompa e circunstância, mostrando toda a sua intensidade, com os olhos semi cerrados olhando para o horizonte volto ao meu posto de observação, sozinho com meus pensamentos tento entender o que pode acontecer no sótão escuro da casa velha ao longe, me vejo dentro desse ambiente escuro observando as fissuras por onde escapa a luz e entram as tristezas, fico ali por tempo suficiente para os ponteiros do meu relógio imaginário marcar um quarto de hora. Alheio ao mundo e absorto no transe da minha mente tento lembrar que haveria muito o que fazer num dia como esse, ler um romance, tomar chá, afinal, um dia de chuva e tão bom quanto um dia de sol. Um ônibus azul e branco para, a mulher embarca e segue o seu caminho em direção a zona oeste da cidade. Nesse momento a metrópole parece bastante solitária, a noite esta chegando e junto com ela um gosto de melancolia aborrece meus lábios, fico triste. Esse sentimento momentâneo, as vezes considerado saudável não costuma me afetar e quando isso acontece prefiro digerir sozinho minha angústia. Pois tristeza que se preze não se explica, sente-se. E caminhando por essa mesma estrada, imaginei os milhares de solitários mundo afora: habitantes de um mesmo universo, do grande consciente coletivo poeticamente chamado "la solitude". Especialmente quando se tem um pouco de sol numa tarde chuvosa.
por agnaldo ribeiro

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

para a minha mulher

Foto: agnaldo ribeiro
querida búlgara
não sei se percebeste, mas o dia de ontem, estranhamente ameno, dormiu com um lindo crepúsculo, com todas as estrelas que lhe são de direito, pregadas na teia do mistério que é o universo. durante os dias desta semana as águas da chuva derramaram sobre as tuas calçadas zilhões de pingos prateados de alegria. os braços do mundo pareciam estar mais largos e afáveis, e nos espelhos vi refletido o arco-íris, adocicado como os reflexos que tu espelhas na vida. hoje, quarta, pelas ruas os cães dizem bom dia e sorriem largamente à tua presença. as pessoas usam guarda-chuvas coloridos para dissolver o cinza costumeiro. notas musicais estão penduradas pelo bosque, enfeitando a tua tarde. tudo em tua homenagem. não, não precisas de muitas imaginações para invadir os espaços do mundo com tua luminosa persona. incrivelmente simples, és uma grande mulher que ocupa um lugar muito além das formalidades e convenções. a mulher fantástica de longos cabelos negros, que com os dois pés na realidade mórbida, consegue fazer do caos o laboratório de um saber muito específico, porém essencial. querida menina, tua presença faz-me crer no que já estava sem resgate e viver ao modo "muito estilosa" de ser: simpaticamente, amena, extraordinariamente doce lucidamente sorridente. através de ti reaprendi sobre afeto e sobre os espaços vazios em nossas vidas. isso faz toda a diferença, graças à tua maneira de me dizer sim. obrigado pela essencial ternura. a vida fica mais rica com a tua presença, certamente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

sim

Protesto! Quem é vc ? Seu nome, idade e o que estuda não bastam! minha curiosidade é bem mais complicada...

porque foram coisas bem desejadas

Foto: agnaldo ribeiro
já tive o hobby de colecionar histórias que foram ficando perdidas pelo caminho. eu as guardava numa gaveta da cômoda e, todo dia, puxava a cadeira, sentava em frente à cômoda, abria a gaveta e ficava a contemplá-las. olhava uma por uma, só para ter o gosto de sentir um pouco de raiva e decepção, porque foram coisas tão desejadas e, apesar disso, deram mais errado do que ficar em casa no sábado à noite a ver televisão. mas resolvi largar no devido lugar as histórias que foram ficando perdidas pelo caminho. e o devido lugar delas é exatamente o caminho. lá para trás.porque só o tempo irá adiante. e a bagagem das histórias que foram ficando perdidas pelo caminho é pesada demais para ser levada. este ano, abandonei algumas histórias assim. a todas elas, o meu desejo de que não empatem mais a vida alheia. e que se libertem da sina de ser histórias perdidas pelo caminho.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

a oração

“Senhor, meu Deus, meu eterno e bom Pai Celeste. Mais uma vez estou aqui diante de ti. Primeiro para lhe pedir perdão pelos meus pecados. Depois para lhe agradecer por mais este dia de vida. Ultimamente não tem sido muito fácil. Sei que isso tudo servirá para o meu crescimento. Mas está uma barra. Agora mesmo, estava perdido por aí, sem saber aonde ir. Certamente o Senhor já percebeu como anda o meu coração. Está angustiado demais. Fico na dúvida se precisa ser assim. Confesso que tenho me esforçado, mas me sinto fraco. Hoje eu queria te pedir um pouco mais de discernimento. De paciência para poder enfrentar esta fase. Se eu conseguisse um pouco mais de sabedoria, talvez pudesse sofrer um pouco menos. Eu tenho família, tenho trabalho, tenho amigos queridos. Mas falta algo. O que é isso? O Senhor pode me ajudar a descobrir? Eu coloco a minha vida em suas mãos. Faça dela o que for melhor pra mim. Ajude-me apenas a entender o seu propósito. Aquiete a minha alma, abençoe a minha vida. Tudo que eu lhe peço e suplico, não é em meu nome, nem em meu merecimento. Mas porque sei que o Senhor é bendito e eterno. Amém.”

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!