quinta-feira, 25 de março de 2010

a menina do Rio

Foto: Alexandre Cesar
Eu pouco sei de ti, mas este adendo não
fecha os cofres de nuvens onde vive a minha imaginação.
Não sei de ti, e dos teus passos nada afirmo, pois deles nada sei.
Mas sei que ela tem o sorriso da noite e a leveza do amanhecer.
Sei também que é outono, e agora mesmo debruçada na janela ela vê o céu enegrecer e um outro dia que cessa.
Vós sabeis amigos e eu o sei.
Ela é uma menina com justas razões e dúvidas jamais esclarecidas.
Ela sabe que às vezes o futuro é um desaforado diante do espelho
mesmo quando tudo parece bem. Nos dias bons ela investiga o lirismo no Rio da vida e nas noites sem respostas canta sentada na praia com fogueira e estrela cadente.
Sim. Eu pouco sei de ti e dizem, em alta noite que vivo em falta com Deus e o mundo, que “tenho servido de agulha para muita linha ordinária”, contudo agradeço pelo sorriso anônimo e extrema beleza, preservada na distância daquela cidade esculpida no formato obsceno de suas saliências tão belas.

Obrigado

Por teu sorriso anônimo, discreto,
(O meu país é um reino sossegado...)
Pela ausência da carne em teu afeto,
Obrigado!


Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,

Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!


Por não passar um dia em que eu não diga
— Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga...
Obrigado!


E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intato que salvaste,


Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Poema de autoria do Sr.
Pedro Homem de Melo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

a chave da cidade caiu

imagem: internet
Eu quero roubar você pra mim. Mas logo depois te darei a chance de decidir se quer ou não ser minha prisioneira.
------

sexta-feira, 12 de março de 2010

falemos de silêncio

Falemos de silêncio.
Porque, eminentes sábios, a sabedoria reside no silêncio.
Falemos apenas disto:
Do vocábulo que opera nas profundezas da alma.
Do mais remoto emudecer onde mora o mais puro adágio.
Do mistério que conduz o homem ao tempo exato de todas as coisas.

Mas falemos também de quem não faz silencio.
Do silencio que dissipa e causa desequilíbrio.
Do gemido de sirenes, das cidades ofegantes, do ronco de motores, da loucura das ruas no sábado à noite.
Da fala barulhenta que causa superficialidade e doença em muitos corações.

Falemos de silêncio eminentes sábios.

Falemos de silêncio.

segunda-feira, 8 de março de 2010

é possivel morrer numa segunda feira.

Foto: Kavoo
Agora e oficial, morri. Saiu hoje publicado no diário da república, veio na primeira página. Finalmente promulgada, em papel e suporte on-line, e com total força de lei, daquelas gerais e obrigatórias, em vigor nos continentes e ilhas.
Morri numa segunda-feira por volta das oito da manhã. Senti o coração explodir em tantos pedaços, que era impossível juntá-los. Foi uma morte súbita e inesperada. Fixei a data da minha morte porque tudo passou a ser apócrifo no rugir de um vozear onde fui sumariamente colocado à deriva. Sim, morri porque todos os meus objetivos foram ilusões, Ilusões tolas e inalcançáveis, intangíveis, grandes demais.
Tinha caminhado com os olhos postos no céu, e tropecei em todos os obstáculos possíveis, e caí em todas as ratoeiras que a vida armou. E por isso morri relativamente cedo, relativamente novo, relativamente…
Exijo um desmentido formal, em conferência de imprensa, onde afirme aos microfones o propósito de me relembrar nos meandros desta época, o porque da minha morte, de me querer ao teu redor, agora e lá pelo final de duas eternidades! Explique! Foi o que eu disse a Deus.
E continuei: Não me deixaste manual de instruções, nem nenhum tutorial em português do Brasil, ou inglês americano. Nada que me dissesse para onde me virar nem o que fazer a seguir, agora que apenas uns rastros fugazes da tua sombra fátua me enfeitam os pés, que perambulam por estas nuvens como um peregrino de época. Não me deixastes sequer um folheto explicativo, ao menos; uma tradução manhosa do original em chinês, com o gênero trocado e palavras inventadas, corruptelas ou derivadas. Nem um recado, sequer, na porta da padaria, faz assim ou faz assado, ou um recado na secretária eletrônica do meu celular, no écran do computador, que sumariamente me explicasse os modos de encher os espaços vazios desta semana triste. Não me deu perspectivas de regresso nem qualquer tipo de garantia; não me mostrou as precauções a tomar ou a profilaxia a fazer, nem muito menos, os perigos que corro com a sobredosagem deste depauperamento na minha corrente sanguínea.
Deus não respondeu.
Mas eu sei que é possivel morrer numa manhã de segunda feira por não saber muito bem o que é suposto sentir ou fazer nestes momentos em que a gente vai aprendendo a ir embora um pouquinho a cada dia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

manifestação de uma qualidade pessoal

Foto: Gstatic.com
Hoje a pessoa mais importante que desejei por duas eternidades conhecer me acusou de desrespeito. Verificando o problema conclui: cada vez mais fico irritado com pequeníssimas coisas que acontecem ou que interpreto como verdade ou mentira. Mas depois de ouvir uma retórica logo de manhã acerca do assunto percebi que respeito é muito mais do que ser educado ou polido, é estar correto. Ela me mostrou com palavras e tristeza no olhar que o meu comportamento e alguns dos meus sentimentos em certas ocasiões são uma falta de respeito com quem eu sou e com quem as outras pessoas são. Essa pessoa bela e rara me lembrou que não aceito um horário atrasado. Não aceito uma fala mal dita. Não quero ver a programação da tv, muito menos ler um texto confuso. Porém, às vezes, ela me disse: você ainda chega atrasado, ainda não sabe falar corretamente e ainda escreve textos confusos. Fiquei calado, avaliei as palavras proferidas por ela e percebi que estava diante de uma mulher que se respeita e que se valoriza em primeiro lugar.
E essa é uma das atitudes mais honrosas que admiro nas pessoas que compõem o cenário da minha vida.

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!