segunda-feira, 21 de março de 2011

Um delicado acontecimento


A espera, o azul, o branco, o sono,
o sagrado,
o profano,
o divino entendimento entre humanos,
o erro de aprender, a imperfeição do ser.

A vendedora de flores que constrói um mistério,
o segrel a deriva,
o abismo que o espera.

A satisfação da tua (in)existência.
o toque adormecido da morfina
o cansaço na vastidão dos umbrais,
o sono rancoroso dos mortais.

A impiedade da lamina,
o estalo da cápsula,
o dilaceramento da bala,
o fenecimento das falácias

Uma alma que se cala.

porque morre um grande amor

quando somos lançados no mais absoluto sentimento de solidão após o derradeiro abraço, após o último e desesperado entrelaçar de mãos, entendemos que não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. ali conhecemos aquele momento que guarda o sentido do medo, o segredo que se perde na sombra, a confusão de formas, na curva que traçam as coisas do tempo. o encanto cheio de incerteza e ternura do amor que se esvai. por um segundo queremos reformar o tempo para que ele volte e se vista num prelúdio de cores. mas seria injusto com aquela música do tempo, na noite em que nos achamos. mas, contudo e por fim arrisco mesmo a dizer: somente os amores verdadeiros se acabam. os que sobrevivem, podem durar uma vida inteira incrustados no hábito de se amar, e podem até ser chamados de amor, mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. falta-lhes exatamente o dom da finitude, abrupta e intempestiva. qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. porque esse nobre e maldito sentimento não pode ser domesticado como um animal de estimação. ele nos despedaça a cada embate e lá no rompimento se extingue e nos extingue com ele. ocultar nossas paixões não e um ato de covardia, nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido. mas o grande amor exige isso, quando não mais conseguimos uma maneira astuciosa de suspender a tragédia. e nessa altura só encontramos uma única direção: o fim. morrer um pouco para se continuar vivendo. o rompimento é sua parte complementar. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado. não se vive o amor, sofre-se o amor. sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo. neste cenário começa uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. é aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. no imaginário dos amantes, esse sentimento ainda viverá por muitos anos, sentado, folheando um livro numa praça ou numa sala silenciosa. depois de décadas ele ainda vai estar ali, nas ruínas de uma cidade perdida, nas falésias que fustigam de leve os lábios entreabertos da pessoa amada. no horizonte sugerindo a volubilidade do destino. o mais frágil dos sentidos acena para uma nova estação, e ali mora o mais insólito dos sentimentos, aquele xucro e bravio que nos despedaça a cada embate. e assim os sentidos nos une ao que ainda não acabamos de perder. perdas, que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira... Por Agnaldo Ribeiro

(adaptado do original O jardim, a tempestade by Snege)

sexta-feira, 11 de março de 2011

A uma cadeira

Em conversa com a solidão,
por acidente de um fim de tarde,
descobri que meu corpo arde
de poesia sem explicação.
Decerto, outrora me acharia louco,
mas agora um bobo sem inspiração,
dedicando a ela todo o coração,
o que, um dia, a outrem dediquei tão pouco.
Assim, pela arte que em mim não morre,
e sobrevive, sim, à linha mais torta,
fiz estes versos a uma cadeira,
que, por acaso, segurava a porta.
poesia de autoria do Sr. Bruno Ramalho

sexta-feira, 4 de março de 2011

Foto: BBC London















A liberdade de um homem

O céu estava azul e a brisa de verão acariciava o mar, as pessoas muito apressadas andavam em direção ignorada sem contemplar a beleza daquele lugar. O oceano abraçava o continente negríssimo. Sentado no chão frio de uma cela imunda o senhor de pele escura e cabelos grisalhos olhava o futuro pelas lentes quadradas da janela de aço envelhecido. Uma tristeza profunda, abissal, percorria os labirintos da sua memória e ele sussurrou mais uma vez: “Eu sou o capitão da minha alma”. Guardado no silencio da sua tumba ancestral, o espelho da realidade atinge sua face cansada. Agora é noite e o Senhor Mandela escuta a maquinaria avariada do tempo, o mecanismo das turbinas, o azul do infinito,  fechou os olhos e voou sobre os mares, sobre os rios, sobre os povos esquecidos, sobre os povos lembrados e quando as suas asas já não aguentavam mais, descansou numa praia. E adormeceu. Quando acordou, não estava só. Agora os sussurros flutuam no vento da tarde em distintas direções. Os suspiros bélicos dos opositores desviam-se pelos interstícios ambíguos dos impotentes. E então decidiu compartilhar seus melhores sonhos com o seu povo e o dia nasceu na África do Sul.
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por Agnaldo Ribeiro

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a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!