terça-feira, 5 de maio de 2015

um novo começo

Não venha eu não quero, fique ai, longe. Quem não quer agora sou eu. Ya basta!
Não quero uma “kurva” no meu quintal. Eu me sinto bem assim, sozinho. 
Fique aí mesmo onde está. Ande pelas mesmas ruas onde eu ando, mas não pise em mim; eu nunca mais vou me angustiar e não será por sua causa que quebrarei a seguinte promessa: eu nunca mais vou me angustiar.
Não me tome pela mão, nem me leve para andar em seu parapeito. Tenho vertigens, desequilibro-me facilmente e posso desabar no meio da quadra e sequer quero desabar no meu chão, quanto menos no chão alheio, o chão onde pisam centenas todos os dias. Esse chão sujo e duro não é lugar para mim. Não venha, fique ai, distante de mim, não venha. Eu não quero. Eu me sinto bem assim. Sozinho.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Em silêncio, coloco-me na janela e olho adiante. Longe... e tão perto.
Em silencio quando as cortinas da noite silenciam as pálidas censuras do dia eu faço uma viagem silenciosa até você.

o tempo exato de todas as coisas

caso lhe seja nova a idéia de que a delicada desordem da sua mente não conhece mais a casa onde mora a minha afeição, não se preocupe. o trem no qual viajo tem uma estação que me deixa lá, sempre que estou distraído. quer vir comigo?

por conseguinte

pois sim. vejamos bem. estou sozinho. ou, como se costuma dizer, sem vivalma por perto. é ruim estar sozinho? há muito tempo decidi que não. eu sou – e digam o que quiserem – a minha melhor companhia. é claro que existem companhias raras, especiais. é claro que existe a alegria incomensurável de certas companhias que nenhum prazer da solidão substitui. mas estas, como é próprio das coisas raras, não estão sempre à mão.

uma questão de fé


não me perturbe com falsos pudores. o que eu preciso agora é voltar ao estado da paixão. é reinventar uma maneira de seguir em frente, desafiado, sem temor, apenas com a vontade de chegar ao outro lado. tenho necessidade de tirar os pés do chão vez em quando. não me agrada o fato de regras inúteis. respeito o medo é claro, mas infâmia também me afaga. gosto de olhar de frente para o que não conheço e cumprimentar – muito prazer! mas esqueço dos tropeços, eu até quero a vertigem, mas ainda sonho com você, sonho com uma vida mais calma, sem tantas máscaras diárias e sofrimentos desnecessários.preciso voltar a ter foco. a acreditar em mim, sem necessariamente ancorar meus navios em portos alheios.

para o amor da minha vida

Quero-te não para guardar em uma caixa
ou prender-te a um cofre para exibir
em reuniões ocasionais, finais de semana.
Não como jóia rara, cara, coleção de selo,
esquecidas em caixinhas prateleiras,
veneradas de quando em quando,
ao gosto e sabor do proprietário.
*
*
Quero-te sim possuir, possuindo como
o agricultor a chuva, o surfista o mar,
a criança o mundo e o pássaro o ar.
Quero ser pai, filho, irmão, namorado,
não te abandonar nunca, sempre ao seu lado.
*
Quero tomar conta de ti e proteger-te,
não para prender-te às regras ou convenções,
mas para que sejas livre, e sendo livre,
resgate-me de onde estou preso.

sábado, 2 de maio de 2015

diferença

Eu sou uma ponte que é usada na guerra de forma unilateral,
Sou um barco salva vida que é usado apenas em situação de emergência, um antídoto que salva a existência do lado de lá, uma espécie de vôo livre com retorno garantido, sirvo para acalmar os momentos de inversão térmica produzido no cérebro de pessoas indecisas e cruéis, sim, sou um gesto que acena quando é apenas necessário.
Eu sou uma lente quebrada que absorve o impacto das dificuldades causadas pela sua cegueira, sou um eco que atravessa o tempo para estacionar ali, bem ali onde os fatos retinem depois de mais um abandono. Sou usado por você que sobrevive, sou a falta de silencio necessário, sou usado, usado na configuração habitual.
Sou a data de validade dos seus caprichos, sou o que não desejo ser, sou a forma cara de conduzir a imaginação. Sou vasto e paciente sou o continente que esta distante, sou a distancia entre nós.                                                 por Agnaldo Ribeiro

felizes são dias de sol



a tua presença não é mais o meu acontecimento. desde que se faça a tua ausência, estou autorizado a acontecer. e existo desde que a tua ausência se firma. eu sei que vem da tua ausência o começo do mês, o fim do ano, a chuva que cai e o sol que vai nascer na semana que vem. eu sei que são produtos da tua falta, os sinais de trânsito sincronizados a reger a bagunça dos automóveis. eu sei que é a tua ausência que comanda a vida de todos os seres que vivem e é a tua presença que comanda o trabalho da morte e também as mãos dos obstetras em todos os partos. da tua ausência, surge a vida e não mais a morte e surge o meio-termo que é o estado em que se encontram os comatosos. a tua presença inspirou o agastamento, o mau caráter, a falta de dialogo sincero, os livros de mau gosto, os jornais sensacionalistas, todos se escrevem sob o patrocínio da tua presença. a nova coleção de armas, as tramas de Brasília, os filmes de fracasso retumbante, uma negociação pela morte, tudo só se lança no mundo porque a tua ausência permite. o mundo existe, enfim, a partir da tua ausência. sei, e sei que a tua ausência é o combustível de tudo. é da tua falta absoluta que tudo brota. e as coisas só se consolidam diante da tua ausência.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

e por assim dizer


É oficial: esqueceste-me. Saiu hoje publicado no diário da república, veio na primeira página. Finalmente promulgada, em papel e suporte on-line, e com total força de lei, daquelas gerais e obrigatórias, em vigor nos continentes e ilhas. Está na boca dos vendedores de peixe, no alinhamento dos telejornais e nas listas dos homens da rádio. Reuniram-se comissões, pediram-se pareceres vários, aprovou-se na especialidade. Esqueceste-me, é oficial. Mas correm por aqui uns boatos, que quando te cansas do que tens a mais, ainda te queima os lábios a ponta escassa de um beijo, como princesa adormecida. Pois a mim, não me convencem, as lembranças oficiosas, as memórias por ouvir dizer, o ruído da voz do povo. Exijo um desmentido formal, em conferência de imprensa, onde afirme aos microfones o propósito de me relembrar nos meandros da tua boca, e de me quereres ao teu redor lá pelo final de uma destas tardes de Outono. Foste embora e não me ensinaste a viver sem ti. Não me deixaste manual de instruções, nem nenhum tutorial em português do Brasil, ou espanhol da Argentina, ou inglês americano. Nada que me dissesse para onde me virar nem o que fazer a seguir, agora que apenas uns rastros fugazes da tua sombra fátua me enfeitam os pés, que perambulam como um peregrino de época. Um folheto explicativo, ao menos; uma tradução manhosa do original em chinês, com o gênero trocado e palavras inventadas, corruptelas ou derivadas. Nem um recado, sequer, na porta da padaria, faz assim ou faz assado, ou um recado na secretária eletrônica do meu celular, no écran do computador, que sumariamente me explicasse os modos de encher os espaços vazios com esta semana triste. Não me deu perspectivas de regresso nem qualquer tipo de garantia; não me mostrou as precauções a tomar ou a profilaxia a fazer, nem muito menos, os perigos que corro com a sobredosagem da tua ausência na minha corrente sanguínea. Foste embora e eu, as voltas com as dificuldades de montagem da tua falta no meu melancólico recanto, sem saber como me encaixar no vácuo que provocaste. Eu, solto e desconexo, redescobrindo o tema da vida. Redescobrindo os segredos singelos das coisas e as minúcias do estar vivo.

a arte de dizer não.

Eu gosto de infâmia. Por isso sem meias verdades aqui. Tenha a bondade!